quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Gabrielle - por Malina

*Esse conto é uma homenagem á Denny G. Du Coudray.

"Ela levanta as flores da janela

Flores de verão agora flocos de inverno
Ela levanta seu véu para a manhã chuvosa
Esconde seus olhos do sol outra vez

Mil anos de luz fraca sobre sua face
Corta dentro dela o sonho do juramento
Ela bate suas flores na janela lateral
Eles caem para a terra eles caem para a terra

Esconde longe do sol furioso
Você esconde seu amor do fogo do além..."
(Fields of Nephilim)

Eu tinha passado a noite toda no bar de um conhecido, já se passavam das quatro da manhã quando resolvi ir para casa. Acendi meu cigarro e saí do bar.
Comecei a andar pelas ruas, Wilmont dormia profundamente.

Eu já estava acostumada a andar sozinha, na verdade não tive outra escolha.
No começo a melancolia me tomava, andava lamentosa e quase não aproveitava meus passeios. Com o tempo fui obrigada a me acostumar com tal solidão.

Eu já morava em Wilmont há muito tempo e adorava a cidade. Sabia que nada me tiraria dali.
Meu apartamento era pequeno, mas confortável. A tristeza parecia sempre emanar das paredes velhas. Os móveis estavam sempre nos mesmos lugares, raramente os mudava. Minha pilha de cd´s e a coleção de vinil que me traziam sempre uma alegria mórbida. Os porta-retratos sobre a cômoda, me faziam voltar ao tempo toda vez que os olhava. Tinha sempre meia-dúzia de cervejas na geladeira, o cinzeiro sobre a mesa da cozinha e minha cafeteira que apesar de velha, eu fazia questão em mantê-la impecávelmente limpa.
O apartamento era herança de um tio que eu adorava e que infelizmente falecera. Por vezes eu imaginava que ele estava ali me fazendo companhia. Tinha sempre um pouco dele naquela atmosfera sóbria e antiga que pairava sobre o lugar.
Nas soturnas manhãs nubladas eu sentava na cadeira enquanto tomava meu café e tentava manter meus pensamentos distantes do passado.

Esse dia que narro agora, tinha começado assim. Apesar de que não me lembro um único dia que não tenha amanhecido dessa maneira.

******

Estava andando pelas ruas do Centro, distraída como sempre, quando avistei de longe uma moça parada perto do ponto de táxi, que se encontrava vazio. Caminhei normalmente em sua direção e quando me aproximei notei que ela falava sozinha.

- Mon Dieu! O que faço agora? - Ela tinha um sotaque francês evidente. Passei por ela, mas não pude deixar de prestar atenção em suas palavras, ela continuou: - Não sei o que vim fazer aqui, Dieu!

Eu já estava á dois passos de distância dela, quando resolvi voltar.

- Boa noite! - Falei e ela se virou em minha direção, percebi que não havia notado minha presença.

- Oui, boa noite. - Ela respondeu tentando sorrir. Era uma mulher muito bonita, tinha o cabelo num tom escuro de loiro, estatura mediana. Os olhos expressivos e a boca bem desenhada. Vestia um casaco pesado e tinha a face corada pelo frio.

- Posso lhe ajudar?

- Oui, oui. Acho que estou perdida. Como faço para ir embora? Já fui na rodoviária e só tem ônibus pela manhã, estou esperando um táxi, mas não creio que tenha. Dieu, porque fui acreditar nele! - Ela falou e as lágrimas ameaçaram escorrer dos seus olhos.

- Olha, não se preocupe, eu moro aqui perto. O que acha de irmos até lá? Tomamos um café enquanto você espera a hora do ônibus. Está muito frio aqui fora. O que acha?

- Non, non. Não quero incomodá-la.

- Por favor. - Eu falei indicando o caminho. Ela entendeu que seria melhor e começou a andar.

- Só por algumas horas, prometo não atrapalhar.

- Vamos ou iremos congelar aqui fora. - Falei sorrindo.

Logo estávamos subindo as escadas do meu prédio. Quando notei que ela transpirava, apesar do frio, ajudei-a com a mala marrom que carregava.

- Entre. - Eu disse.

- Merci. - Ela respondeu e entrou. Ficou parada no canto da sala, parecia com medo.

- Por favor, fique á vontade. Eu moro sozinha, sente-se no sofá que logo trago nosso café.

Ela se sentou e eu fui para o banheiro para trocar minhas roupas. Assim que terminei, voltei até a sala e a olhei, ela sorriu e vi que estava mais descontraída.

- Vou na cozinha e já volto. - Eu disse.

- Bien. - Ela sorriu.

Fui para cozinha e lavei primeiro uns copos que estavam na pia, quando acabei liguei a cafeteira. Fui acender meu cigarro, que havia deixado em cima da mesa, quando a vi parada na porta da cozinha.
Eu acendi meu cigarro e falei: - Você não me disse o seu nome. - Sorri.

- Pardon, meu nome é Gabrielle. E o seu ma fleur?

- Malina.

O sorriso dela era maravilhoso, alegrava minha casa.

- Gabrielle, talvez queira tomar banho ou trocar suas roupas úmidas.

- Adoraria. Estou com um pouco de frio agora.

Eu indiquei o banheiro e ela foi até a sala pegar uma roupa em sua mala. Voltei para cozinha, o café estava quase pronto.

- Que acha? - Ela falou mostrando a roupa que acabava de vestir. Era um vestido um pouco largo, vermelho claro. A parte superior tinha umas fitas de cetim enfeitando, a saia - na verdade as saias, pois eram mais de uma - eram de um tecido quase transparente. Ela ainda calçava sua bota pesada e estava com um outro casaco, maior que o anterior, aberto por cima do vestido.

- Está belíssimo, combina com você. Venha, acabei de fazer o café.

Ela se aproximou sorrindo e sentou-se na cadeira. Eu servi o café e a fitei enquanto bebia o seu.

- Se me permite perguntar, o que aconteceu? - Perguntei.

- Você nem imagina, ma fleur. Foi um erro meu ter vindo.

- Não precisa contar se quiser, desculpe a pergunta.

- Non, non. Falo sim. Eu conheci um rapaz, um belo rapaz. Ele estava em minha cidade, disse que á trabalho. Nos encontramos diversas vezes. Ele era sempre tão gentil comigo e carinhoso, achei que estivéssemos namorando. Passamos boas horas juntos e ele vivia me convidando para vim á Wilmont. Disse que a cidade era linda e que adoraria que eu viesse.

- Quanto tempo ele ficou na sua cidade?

- Seis meses e meio. E nesse tempo, ficamos juntos, nos encontrávamos quase todos os dias. Até que ele disse que estava de partida, imagina ma fleur, eu fiquei desesperada. Há essas alturas, já estava apaixonada por ele.

- E ele veio embora?

- Oui, na mesma semana, dois dias depois de conversarmos. Eu fiquei perdida no começo, queria estar junto á ele, mas ele sumiu. Meses se passaram e então resolvi esquecê-lo, foi difícil.

- E então?

- E então ele ligou, semana passada, dizendo que não aguentava mais ficar longe de mim. Pediu para que eu viesse na próxima semana e me deu o endereço. Eu fiquei assustada, mas não consegui resistir. Eu vi que ainda o amava.

- E você disse isso pra ele?

- Disse e ele então deu as ordens. Disse que eu deveria pegar o trem das três e vim para uma cidade vizinha. Disse que eu chegaria nessa cidade por volta das seis e que assim que chegasse, deveria esperar o ônibus das oito para Wilmont. Falou que era necessário que eu respeitasse os horários, eu imaginei que seria por causa do seu trabalho ou coisa parecida.

- Sim, e então? O que aconteceu quando vocês se encontraram?

- Nada ma chéri. Eu não o encontrei. Desci do ônibus e vim direto para o endereço que ele me deu, só que cheguei aqui e o lugar era só uma casa abandonada. Perguntei para os vizinhos e eles disseram que há décadas ninguém vivia ali.

- Nossa, estranho. - Falei pra mim mesma, não pra ela. Nada me surpreendia mais em Wilmont.

- Estranho nada, ele já tinha me deixado uma vez, com certeza fez isso de propósito. Eu estava tão cega que não vi o óbvio, ele era apenas mais um homem tentando se aproveitar de mim.

- Entendo sua frustação.

- Mais que frustação. Eu o amava, no fundo acreditava que ele era a pessoa certa, que merecia meu amor. Como fui tola, mon Dieu, como fui tola!

- Acalme-se, ele não merecia. Você é bela demais, não se preocupe um dia encontrará alguém que lhe fará feliz.

- Non. Agora não pretendo mais. Vou dedicar-me somente ao meu trabalho, não quero mais saber de amores.

- Entendo. E com o que você trabalha?

- Eu sou pintora e toco violoncelo.

- Nossa, que interessante.

- Poético. Non ma fleur?

- Muito. - Eu falei e sorri. Ainda nos encaramos por um tempo, seu olhar doce parecia iluminar minha alma.

- Você quer dormir? Se quiser pode dormir em minha cama, eu deito no sofá, estou acostumada a dormir lá.

- Você é muito gentil querida. Acho que quero sim, estou exausta.

- Aceite sim, não há problema algum.

Nos levantamos e eu a acompanhei até o quarto, ela se sentou na cama e vi que estava mesmo cansada, não quis prendê-la mais por muito tempo então logo peguei um cobertor e fui para sala.
Antes de deitar, olhei pela janela, o céu estava cinza escuro. Deitei e fiquei olhando para o teto, um aroma floral inundava minha sala. O cheiro doce afastava a atmosfera soturna do meu apartamento.
Pensei no quanto ela era bela, seu corpo perfeito com as curvas bem desenhadas embaixo do vestido de crepe indiano.

"Bela e inocente" - pensei.

Ela não sabia dos segredos de Wilmont, do que "a cidade" era capaz. Lamentei por ela ter passado por uma situação tão difícil, típica de Wilmont.

Acordei bem cedo, estava animada. Levantei e fiz chocolate quente. Logo Gabrielle estava junto á mim. Tomamos nosso desjejum, logo depois ela levantou e foi até a janela, teve um momento solitário enquanto apreciava nosso belo céu de agosto.

- Vou partir, ma fleur. - Ela disse.

- Não queria que partisse com essa má impressão da cidade. Essa cidade é mesmo maravilhosa.

- Eu voltarei mais vezes, o caminho foi belíssimo mesmo e pude ver muita coisa que gosto aqui.

- Se quiser é só me procurar. - Eu disse me afastando para pegar um pedaço de papel e uma caneta. Anotei o endereço e o telefone e me aproximei novamente. - Aqui está, é só avisar. Será um enorme prazer recebê-la novamente.

- Obrigada querida. - Ela sorriu e continuou: E por falar nisso, - pegou um papel que estava em seu bolso - não preciso mais disso. É o endereço de Michael W. Houten, o rapaz que não me merece. - Sorriu.

Ela acabou de rasgar o papel e deixou em cima da mesa. Fomos até a sala e ela pegou sua mala, quando abri a porta ela virou-se e estendendo a mão me deu um cartão.

- Aqui está meu endereço e meu telefone. Caso queira me visitar.

- Obrigada.

- Eu que agradeço, por tudo. - Ela disse e sorriu.

- Imagina.

- Tenha um belo dia. - Falou e partiu.

******

Uma semana passou e eu não conseguia tirar Gabrielle e o suposto rapaz da minha cabeça. Resolvi então pegar os pedaços do papel que ela havia rasgado. Sabia que ali estava o endereço de Michael Houten.

Saí de casa decidida a descobrir a verdade sobre ele, fui até o local indicado no papel. Era mesmo uma casa abandonada. Algumas casas vizinhas também pareciam abandonadas e outras bem velhas. Andei então até a cafeteria que ficava ao lado e vendo que um Senhor que atendia no balcão, fui até sua direção e perguntei se ele conhecia Michael.

Ele fez uma expressão pensativa e logo falou:

- Oh sim! Conheci sim, era filho do Richard. Família boa. Mas não entendo sua curiosidade minha cara, eles morreram há quinze anos.

- Como assim morreram?

- Naquele acidente de trem, o único acidente de trem da região. Você não conhece a história? O famoso trem das três?

- Não senhor, acho que nunca ouvi essa história. - Falei. - Não há nenhum parente deles? Talvez um irmão?

- Não, eram só eles e a mãe. Logo depois da morte deles dois, a mãe se suicidou e a casa ficou abandonada.

- Obrigada senhor.

Saí da cafeteria. Pensei em avisá-la, mas não queria que se magoasse ou ficasse assustada. Eu já estava acostumada com os casos estranhos de Wilmont, mas ela não.
Andei confusa, pensando se contaria ou não para ela, depois de muito pensar, decidi que contaria. Afinal, eu nada tinha a ver com sua história, descobri por curiosidade, achei que seria melhor que contasse logo.

Fui direto para casa e peguei minha bolsa, iria até sua casa. Não levei mala, não demoraria por lá, ficaria só o tempo de contar tudo e depois voltaria para casa.

Peguei o ônibus e depois o trem, cheguei em sua cidade por volta das quatro da tarde. Da estação andei até o Centro da cidade e lá peguei um táxi. Mostrei para o motorista o endereço e ele me levou até lá.

Chegamos na casa de Gabrielle. A casa era simples mas muito bonita. Era de madeira e na frente, do lado esquerdo tinha um enorme pé de carvalho. Do lado direito, um lindo jardim de margaridas e rosas.
Andei pelo pequeno caminho de pedras e chegando na porta, toquei a campainha.
Não houve resposta. Toquei novamente e nada.
Pensei então que ela poderia ter saído ou algo parecido, sentei então na varanda e esperei que voltasse.
Esperei muito tempo, quando olhei no relógio já eram quase seis horas e quando finalmente o relógio acusou seis horas em ponto, ouvi uma melodia vinda da casa.

Levantei-me e prestei atenção por alguns minutos, o som era de violoncelo. Um som perfeito, que só podia estar sendo tocado pelas mãos da encantadora Gabrielle.
Esperei mais alguns minutos para novamente chamar, a melodia parecia me hipnotizar. Aproximei-me novamente da porta e quando encostei na mesma, essa se abriu.
Entrei cautelosamente e chamei-a, mas ela não respondeu. Entrei até a sala então e seguindo o som, andei por um corredor até atingir a porta de onde vi que o som vinha.
A porta estava entreaberta, inclinei-me em sua direção e espiei o interior. Não a vi, então abri a porta e entrei no quarto, a melodia estava mais alta, como se um rádio estivesse a tocando. O perfume inesquecível dominava o ambiente.

O quarto tinha um belo papel de parede num tom de verde claro, aproximei de uma das paredes quando vi alguns quadros que ali estavam. Na minha opnião, belíssimos quadros, dóceis e muito bem pintados.

Saí do quarto, a música não parava. Andei por toda a casa, mas Gabrielle não estava em nenhum dos cômodos. Sem esperanças de encontrá-la, resolvi partir.

******

Voltei a estação e logo estava á caminho de Wilmont. No caminho pensei muitas coisas e senti como se tivesse sonhado esse tempo todo. Mas embora estivesse ébria quando a encontrei, eu tinha certeza de que tudo tinha realmente acontecido.
Quando cheguei na minha adorada cidade, algo parecia diferente. Senti como se não tivesse que ter saído de Wilmont e vi que as coisas começavam a mudar.


3 comentários:

Denny Guinevere Du Coudray disse...

Que maravilhoso ver uma homenagem vindo de você Malina. Este conto realmente mexeu comigo, e eu já o li umas tres vezes. Você tem um talento incrível. E fico super honrada em ver esta homenagem, agradeço de coração. Te Amo Amiga. Obrigada mais uma vez.


Parabens pelo seu talento...

Malina disse...

De nada Denny, mudei o final então....espero que tenha gostado desse "novo" final...rsrsrs
Obrigada pelos elogios...

=D

Lady Mila disse...

eu adorei Poli..Gabriela é tão doce...e tão envolvente....ficou uma história perfeita.